Cidades Sustentáveis: por que o futuro precisa respeitar o território
- ANTÔNIO ZAYEK

- 1 de jan.
- 4 min de leitura
Atualizado: 7 de mai.
Falar sobre cidades sustentáveis é falar sobre uma questão simples, mas frequentemente ignorada: nenhuma cidade existe fora do território. Toda rua, bairro, indústria, condomínio, praça, córrego, nascente, área verde e propriedade rural faz parte de um mesmo sistema. Quando esse sistema é planejado sem respeito ao solo, à água, à vegetação e às pessoas, a cidade passa a acumular problemas que depois aparecem como enchentes, erosões, ilhas de calor, contaminação, insegurança hídrica, desigualdade territorial e perda de qualidade de vida.
Minha trajetória sempre me levou a olhar para o território como um organismo vivo. Como médico-veterinário, permacultor e consultor em projetos ambientais, aprendi que desenvolvimento não pode significar apenas ocupação, construção e crescimento econômico. Desenvolvimento precisa significar inteligência na forma de ocupar o espaço, responsabilidade na relação com os recursos naturais e capacidade de criar soluções que permaneçam úteis ao longo do tempo. No meu currículo, essa trajetória passa pela formação em Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Goiás, pela permacultura, pela consultoria ambiental, pelo trabalho com desenvolvimento urbano sustentável e pela atuação em projetos ligados à água, ao Cerrado, ao saneamento ecológico e às Soluções Baseadas na Natureza.
Uma cidade sustentável não é aquela que apenas planta árvores ou faz campanhas ambientais ocasionais. Ela é aquela que entende o ciclo da água, protege suas nascentes, organiza sua drenagem, trata seus resíduos, respeita suas áreas sensíveis, planeja sua expansão urbana e reconhece que cada decisão sobre o solo produz consequências ambientais, econômicas e sociais. O planejamento urbano precisa deixar de ser apenas desenho de ruas e loteamentos. Ele deve ser uma leitura técnica da vida que acontece sobre o território.
Ao participar da formulação da Carta Brasileira para Cidades Inteligentes, atuei dentro de uma discussão que me parece essencial: cidades inteligentes não são apenas cidades digitais. Elas precisam ser comprometidas com o desenvolvimento urbano e a transformação sustentável em seus aspectos econômicos, ambientais e socioculturais. Uma cidade verdadeiramente inteligente não é a que apenas instala tecnologia, mas a que usa planejamento, inovação e inclusão para melhorar a vida real das pessoas.
Também participei de discussões sobre diversidade territorial, um tema decisivo para o Brasil. Não existe uma única fórmula para todos os municípios. Uma cidade do Cerrado, uma cidade costeira, uma cidade amazônica, uma cidade industrial, uma cidade ruralizada e uma capital metropolitana não enfrentam os mesmos desafios. Cada território possui sua lógica, sua paisagem, seus riscos, suas potencialidades e seus limites. Por isso, qualquer política pública séria precisa começar pela escuta do território antes de propor soluções genéricas.
Essa visão também esteve presente em minha atuação no projeto ANDUS, ligado ao apoio ao desenvolvimento urbano sustentável no Brasil. O trabalho envolveu uma nova abordagem baseada na Agenda 2030, na Nova Agenda Urbana e no Acordo de Paris, com atuação em municípios como Anápolis, Fortaleza, Sobral, Naviraí e Amajari. Essa experiência reforçou algo que considero central: a sustentabilidade urbana precisa sair dos documentos e entrar na prática da gestão, da infraestrutura, da legislação, da paisagem e da vida cotidiana.
Quando falo em cidade sustentável, falo também em segurança hídrica. Uma cidade que impermeabiliza demais o solo, ocupa áreas inadequadas, destrói vegetação nativa e trata córregos como obstáculos está produzindo seus próprios riscos. A água não desaparece porque foi ignorada pelo planejamento. Ela retorna em forma de enxurrada, erosão, alagamento, escassez ou contaminação. Por isso, proteger a água é uma decisão de infraestrutura, saúde pública, economia e responsabilidade coletiva.
As Soluções Baseadas na Natureza oferecem um caminho importante nesse processo. Elas utilizam a própria natureza para enfrentar desafios urbanos e ambientais, considerando a realidade local e os problemas específicos de cada território. No Catálogo Brasileiro de Soluções Baseadas na Natureza, contribuí com esse debate porque acredito que a natureza não deve ser vista como enfeite urbano. Ela é infraestrutura viva. Uma nascente protegida, uma mata ciliar recuperada, um jardim de chuva, uma área permeável, uma fossa ecológica e um corredor verde podem ser tão estratégicos quanto uma obra convencional, desde que sejam planejados com seriedade técnica.
Minha experiência em Anápolis também reforça essa compreensão. Atuei em funções ligadas à limpeza urbana e aos recursos hídricos, participei de iniciativas relacionadas à gestão ambiental, resíduos, compostagem, viveiros municipais, parcerias comunitárias e projetos de proteção ambiental. Essas experiências mostram que sustentabilidade não é uma palavra abstrata. Ela aparece na rotina da cidade: no lixo que é tratado corretamente, na água que é protegida, na árvore que é plantada no lugar certo, no solo que deixa de ser degradado, na praça que volta a ter função comunitária e na legislação que orienta melhor a ocupação urbana.
Eu acredito que o futuro das cidades depende de uma mudança de postura. Não podemos continuar tratando problemas ambientais como emergências isoladas. Enchentes, escassez de água, resíduos mal destinados, perda de vegetação e ocupação desordenada são sintomas de uma mesma falha: a incapacidade de planejar o território como um sistema integrado. Uma cidade que não entende sua geografia, sua água e seu solo está sempre corrigindo danos que poderiam ter sido evitados.
Por isso, defendo uma visão de cidade em que desenvolvimento e responsabilidade ambiental caminhem juntos. Não se trata de impedir o crescimento. Trata-se de qualificar o crescimento. Construir melhor, ocupar melhor, produzir melhor, preservar melhor e planejar com mais inteligência. O território não é uma folha em branco. Ele tem memória, limites, ciclos e necessidades.
Cidades sustentáveis são aquelas que entendem que o futuro não será construído apenas com concreto, tecnologia e expansão urbana. O futuro dependerá da capacidade de proteger a água, recuperar áreas degradadas, respeitar o Cerrado, valorizar a diversidade territorial, aplicar soluções baseadas na natureza e transformar conhecimento técnico em decisões concretas.
A sustentabilidade que defendo é prática. Ela precisa ser vista no território, medida nos resultados e sentida na vida das pessoas. Porque uma cidade só pode ser chamada de inteligente quando também é capaz de ser justa com seu ambiente, responsável com sua água e honesta com o futuro.
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